Rei morto, rei posto: ainda Ulisses não chegou a casa (mas a Odisseia de Christopher Nolan, como se previa, bateu recordes de bilheteira logo nos primeiros dias) e já as redes sociais se agitam com imagens do próximo blockbuster.
Para vermos o filme completo, temos de esperar por Outubro, mas o trailer já está aí. Falamos de Digger de Alejandro Iñarritu, mas falamos sobretudo da sua estrela, um quase irreconhecível Tom Cruise, envelhecido e mais gordo através de próteses, no papel de um bilionário excêntrico.
O discurso motivador do actor na cerimónia de encerramento do Mundial de Futebol, no estádio MetLife, em Nova Jersey (há quem diga que ficou desiludido porque esperava um impacto maior) começou logo a ajudar como promoção do filme. E fez lembrar o seu voo sobre outro estádio, noutra cidade, noutro país: Paris, Stade de France, final das Olimpíadas de 2024. Diferente cenário, mas a mesma vontade de tornar o mundo (a América, ele próprio) grande outra vez. Será impressão nossa ou a cadência da voz de Trump pareceu ecoar no discurso de Cruise?
Actor corajoso e talentoso — não esquecemos De Olhos Bem Fechados, um salto de fé com Kubrick — é o tipo de estrela que parece engolir tudo à sua volta. Nós pusemo-nos a olhar para esse hype.
O que nos levou a outro actor. Que em alguns casos é também realizador e produtor: Seth Rogen. Junta-se a Oliva Wilde, realizadora e actriz de O Convite, e a Penélope Cruz e Edward Norton, numa comédia dramática sobre a vida de casal. É um inesperado sucesso neste Verão. E é o pretexto para falarmos sobre intérpretes — por exemplo: haverá demasiada auto-irrisão em Rogen, o eterno anti-galã desajeitado que, apesar disso, muitas vezes fica com a miúda?—, os registos televisivo e cinematográfico, a influência do humor de canadianos e judeus em Hollywood, e até o que faz o sotaque de Penélope Cruz à sua carreira.
E porque nem só de blockbusters ou de sucessos inesperados se faz o cinema, não esquecemos uma pequena pérola indiana que está nas salas, O Canto das Árvores Esquecidas, de Anuparna Roy — a Índia das castas, as pressões sociais, os homens que usam as mulheres, as mulheres que usam os homens mas que criam laços únicos entre elas. Um filme muito pessoal, profundamente corajoso, feito com poucos recursos — nos antípodas de Digger.
No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema
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