Há momentos em que o mundo parece uma verdadeira terra de gigantes. Os problemas crescem, os desafios assustam e nós nos sentimos pequenos como gafanhotos, exatamente como os exploradores enviados por Moisés diante dos nefilins. A imagem dos gigantes, presente na Bíblia e na música dos Engenheiros do Hawaii, revela nossa tendência de confundir grandeza com poder, prestígio e superioridade. Os antigos reis chegavam a reivindicar uma origem divina para justificar sua autoridade. Mas existe uma grandeza muito maior do que aquela que o mundo admira: a grandeza de quem sabe que é filho de Deus.
Em 1931, cercado por dificuldades pessoais, perseguições religiosas e pela instabilidade política da Espanha, São Josemaria Escrivá viveu uma experiência extraordinária enquanto andava de bonde por Madri. A certeza profunda da paternidade divina tomou conta de sua alma, fazendo-o repetir pelas ruas: "Abba, Pater! Meu Pai!" Essa descoberta transformou sua vida e sua missão. O Salmo 2, que proclama a soberania de Deus diante das nações revoltadas, tornou-se uma fonte de coragem para enfrentar as batalhas espirituais. Os primeiros cristãos também recorreram a esse salmo diante das perseguições, conscientes de que nenhuma potência humana poderia superar a força de Deus.
Ser filho de Deus não significa apenas encontrar proteção nas dificuldades, mas receber coragem para transformar o mundo. O cristão não foi chamado a viver encolhido pelo medo, mas a avançar na batalha pelas almas, levando a fé e o amor de Cristo a todos os ambientes. São Paulo recorda que não recebemos um espírito de escravidão e temor, mas de adoção filial, pelo qual clamamos: "Abba, Pai!" Mesmo quando nos sentimos fracos, podemos rezar o Pai-Nosso com a confiança de quem sabe que Deus responde com amor: "Meu filho, estou aqui!" A oração, a graça e a consciência da filiação divina alargam nosso coração e nos tornam capazes de uma audácia verdadeiramente cristã.
Carlos Drummond de Andrade escreveu que seu coração era mais vasto que o mundo, enquanto Fernando Pessoa, mesmo reconhecendo sua pequenez, dizia carregar dentro de si todos os sonhos do mundo. Essa aparente contradição revela uma verdade extraordinária: fomos criados capazes de Deus e, pelo Batismo, elevados à condição de seus filhos. Podemos ser pequenos, frágeis e pecadores, mas a graça nos torna gigantes de coração, capazes de enfrentar grandes desafios com magnanimidade. A vitória cristã na Batalha de Lepanto, associada à intercessão de Nossa Senhora do Rosário, recorda-nos que a coragem nasce também da oração e da confiança em nossa Mãe. Com Deus por Pai e Maria por Mãe, não precisamos fugir dos gigantes: podemos avançar com fé, generosidade e um coração maior que o mundo!
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📚 Referências
- Salmo 2 citado em Atos 4.
- Podcast que apresenta interpretação para os gigantes bíblicos: https://www.ancientfaith.com/podcasts...
- O homem de Vila Tevere, Pilar Urbano (Biografia de São Josemaria Escrivá), capítulo 4 "Ut gigas".
- A Igreja em Oração - Cadernos sobre a Oração vol. 6, Cartuxos Anônimos
- Carlos Drummond de Andrade: Poema de Sete Faces.
- Fernando Pessoa (Álvaro de Campos): Tabacaria.